Dados estatísticos, normalmente, são facilmente deturpados. A conclusão que se tira deles, então, nem se fala. Quando estas ilações absurdas estão escritas, fácil fica verificar os dados, procurar as fontes, rever tudo e encontrar onde nasceu a baboseira. Porém, quando falada, dificilmente há reação. Como geralmente quem assiste a programas televisivos já não tem capacidade crítica nem para o que está escrito, imaginemos o que ocorre quando recebe o estultilóquio via tubo de imagem. Aceita com alegria toda a avalanche de mentiras.
Isto vem ocorrendo com freqüência quando são expostas reportagens sobre a pirataria. Os cálculos são feitos da seguinte forma: calcula-se que aproximadamente um milhão de discos de um determinado músico foi vendido pelas ruas em cópias piratas, por exemplo. Se cada disco custa 100 reais, o raciocínio é tão lógico que até impressiona. Deixou-se de vender 100 milhões de reais em discos daquele cantor...
Certa vez, assistindo ao programa Globo Repórter, em uma emissora que preza pela qualidade de suas produções jornalísticas, deparei-me com a descrição do que ocorre com a pirataria de camisas de clubes de futebol. O raciocínio foi o mesmo. Multiplicou-se o número de camisas vendidas nos camelôs (estimado, naturalmente) pelo valor das mesmas nas lojas oficiais dos clubes e... eureka! Os números eram astronômicos.
Nem passa pela cabeça destes matemáticos de intelecção duvidosa, que o assalariado, quando receber os seus 450 reais, dificilmente pagará 120 ou 150 por uma camisa de um clube de futebol, por mais apaixonado que ele seja. Ele compra a sua, e para os seus dois pimpolhos, lá no camelô, por uns 15 ou 20 reais cada. Adquirir as três pelo preço da loja consumiria todo o seu estipêndio. A linha de raciocínio é falha, absurda, e não tem nenhuma relação direta com a realidade social e econômica da população. Ou seja, o fato de uma pessoa adquirir um produto “pirateado” não gera a conseqüência de, no caso da falta deste produto neste meio, ele necessariamente o obteria pagando um preço muito mais elevado.
Lamenta-se esta manipulação dos números, com intenção de induzir pessoas pouco ou nada preparadas para analisá-los de forma adequada e correta, mas compreende-se perfeitamente o uso continuado deste expediente por parte dos meios de comunicação, que organizam e transmitem as suas notícias geralmente de forma viciosa, ora como vetor para interesses maiores, ora por completa falta de conhecimento compreensão de fatos, números e princípios lógicos.
Para o leitor aprofundar-se no assunto, sugiro “Como Ler Jornais”, de Janer Cristaldo. Disponível gratuitamente na Internet.
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