quarta-feira, 6 de maio de 2009

A vida e seus valores

Retorno ao assunto com uma pergunta cobrindo uma situação hipotética: existem dois barcos no oceano, cada qual com vinte passageiros. Tem início uma tempestade, e os dois barcos agora estão a pique, vão afundar de qualquer maneira. Somente uma embarcação nas proximidades pode prestar socorro, mas só tem tempo para cobrir a distância até um destes barcos. O primeiro barco afundando está ocupado por pessoas comuns, e o segundo barco tem vinte cientistas e pessoal de apoio, cujo objetivo ao chegar ao seu destino é elaborar um medicamento que salvará milhares de pessoas da morte, devido a uma epidemia no local de destino. E então, leitor, você é o capitão do barco que realizará o salvamento. Para onde você vai se dirigir?

Este é um exercício desagradável, mexe com os princípios básicos que regem a nossa ética e, conseqüentemente, o nosso comportamento. Comumente é chamado de “paradoxo moral”. Por este resumido exemplo, percebemos que algumas vidas, em certas ocasiões, podem ter mais valor que outras. Mas eu vou continuar com o raciocínio.

Levando em consideração que o leitor, naturalmente, dirigiu-se ao barco com os cientistas, mesmo não tendo a menor relação com o destino deles, recebe agora uma nova mensagem, de que no barco das pessoas “comuns” estão não somente o seu pai e a sua mãe, mas seus irmãos e seu amados filhos. E agora, o que fazer? É inegável que os seus são-lhe muito mais caros do que os desconhecidos do destino supracitado, e há uma possibilidade considerável de que, após a segunda mensagem, você mude o rumo do seu barco. Um Capitão indeciso. Levado de um lado para o outro tentando concluir qual seria a atitude correta frente a este paradoxo: qual vida vale mais do que a outra?

Casos filosóficos acabam derramados sobre o mundo jurídico. Sabido é que é lícito matar em legítima defesa. Neste caso, se todas as vidas têm o mesmo valor, porque torna-se tão atenuante valorizar a vida da vítima e desvalorizar a tal ponto a vida do agressor que ela pode simplesmente ser suprimida? Porque ela, ora, não vale nada.

A ética pessoal pode, e geralmente ocorre, refletir-se na moral social. Comparando os termos, a sociedade costuma atuar com atua uma pessoa, mas obviamente de forma muito mais complexa. A sociedade, globalmente, tem lá os seus paradoxos, e pensa, analisa e decide de acordo com os seus padrões morais, aí incluídos os religiosos. A sociedade brasileira, com uma forte influência católica apostólica romana, tende a sentir compaixão até do mais vil, do mais torpe dos criminosos. A vida dos cruéis assassinos, dos monstros que agridem e decepam vidas inocentes, são consideradas de forma geral como de valor idêntico à do trabalhador honesto, daqueles que contribuem para todo o conjunto social.

Subjetivamente, creio que vidas valem muito, outras valem pouco, e tantas outras não valem nada. Poupar o próximo pode ser o nosso próprio sacrifício, ou, como afirma a frase atribuída a São Tomás de Aquino, “se poupardes os lobos haverás de sacrificar as ovelhas”. Colocar todas as vidas no mesmo patamar, com o mesmo valor, é um pensamento carregado de vícios intrínsecos, gera danos sociais mórbidos, é uma contradição filosófica e um pensamento que não resiste à aplicação da mais simplória das análises, como a descrita acima.

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