Há uma movimentação nos meios intelectuais e jornalísticos com base em uma celeuma que envolve um dos meios de comunicação com maior influência do Brasil, o jornal “Folha de São Paulo”. No dia 17 de fevereiro, o editorial deste periódico utilizou o termo “ditabranda” como eufemismo para o período ditatorial compreendido entre 1964 e 1985, quando os militares comandaram política e economicamente a nação.
Baseado em quê o termo? Na comparação. Esta gerou a primeira reação furiosa e ganhou espaço nos jornais, blogs e outros meios de opinião. Como comparar uma desgraça com outra maior? Qual o valor comparativo entre o sofrimento de um brasileiro sob tortura aqui, dez argentinos sob tortura ali, e milhares de russos lá adiante? De fato, não há meios de comparação. A não ser os estatísticos. Mas aí...
A estatística é um perigo por si só. Chamberlain dizia que existiam três tipos de mentira: a mentira, a mentira deslavada e a estatística. Li um autor (Leo Huberman) que utilizava estatísticas do período revolucionário industrial, atacando-as por serem mentirosas e diminuírem a dimensão do drama vivido pela oprimida massa dos trabalhadores nas fábricas. No mesmo livro utiliza com fonte estatística segura, pasmem, os planos qüinqüenais do governo russo (o livro foi editado no final década de trinta).
Estas variações são uma complicação. Ouvi na televisão uma senhora bastante indignada, com toda a razão, descrevendo os horrores que passou sob tortura, e que jamais esquecerá os gritos dos outros torturados. Todos os perseguidos, os torturados, seus familiares e dos mortos e desaparecidos, todos têm razão. Mas há um detalhe.
O detalhe é que, normalmente, as pessoas que mais combatem este ponto de vista, meramente comparativo e puramente estatístico, são pessoas que defendiam à época um regime também totalitário, costumeiramente arbitrário e fortemente militarista, assassino, torturador e muito mais censor, que ceifou a vida de cem milhões de seres humamos em menos de um século. Regime cujo farol tinha como líder um homem de aço que apregoava: “uma morte é um drama, milhares de mortes são uma estatística”. E aí caímos numa roda viva de debates que não encontrarão solução alguma. Foram torurados, de forma geral, pessoas que, caso estivessem com o seu poder ideológico posto em prática, estariam aprovando a tortura, a perseguição, a deportação e a morte dos “contra-revolucionários”.
Neste aspecto, concordo com o jornalista Alexandre Inagaki, para quem esta celeuma somente estaria fomentando uma discussão entre direitistas e esquerdistas. Digo mais: nasce de uma ação básica do ser humano diante de fatos e de comportamentos, qual seja, a simples comparação. Comparamos ex-namorados, professores, jogadores de futebol, e tudo o que nos aparece. Porém, é interessante e construtivo no campo individual, mas perigoso e muitas vezes ofensivo quando relaciona publicamente assuntos complexos e tão delicados como este em pauta.
De fato, esta discussão acaba sendo levada à cabo no meio acadêmico, jornalístico e intelectual, torna-se público, mas termina em mera retórica discutida sobre uma montanha de cadáveres e perseguidos que, como suas famílias, muito sofreram e carregam as chagas incuráveis da dor que suportaram ou ainda suportam.
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