Tornou-se lugar comum no discurso político e social o termo “inclusão digital”, comumente descrito como “a democratização do acesso às tecnologias da Informação, de forma a permitir a inserção de todos na sociedade da informação” (Ricardo de Holanda Janesch, Revista Âmbito Jurídico, apud. IBICT). Dentre outros, mas principalmente, o escopo desta filosofia seria possibilitar à toda a sociedade o acesso a informações disponíveis na Internet, e assim produzir e disseminar conhecimento. Este longo trecho final aparece em mais de 116 mil páginas na Internet, ou seja, pelo menos para disseminar a demagogia o instrumento já está servindo.
Creio que a inclusão digital não passa de uma amplificação da bestialidade humana. Tenho conta no provedor UOL, que me dá acesso a várias possibilidades além da conta de e-mail, como acesso a vários dicionários. E é o que eu mais uso. Houaiss, que é restrito, além do Babylon, que me abre um leque de possibilidades de tradução, a Folha Online, entre outras obras em várias áreas. Quando acesso este provedor via “Google”, o link UOL aparece com subtítulos que são os links mais acessados. Lá está a biblioteca? Não. Os mais procurados são Sexo UOL, Bate-papo, Horóscopo, UOL jogos, Futebol, UOL televisão... nada de novo no front. Tento encurtar caminho, digitado “uol bib”, mas o programa me corrige: “você quis dizer: uol bbb”, e os resultados do dislate explodem lista abaixo. Para encontrar a biblioteca tenho que escarafunchar dentro da página.
A Internet não vai, jamais, produzir ou disseminar conhecimento entre ignaros, fazendo-se mais um veículo passa espalhar estultices. Visitando a biblioteca do SESC em Florianópolis, depara-se com prateleiras preenchidas com boas obras, e também periódicos e outras boas oportunidades de leitura. Logo na entrada, há uma dezena de computadores para pesquisa, pelo menos a princípio. Sempre que desço à biblioteca, o panorama é quase sempre o mesmo: mesas vazias, computadores lotados. Pesquisas? Não, todos abertos em salas de bate-papo, principalmente no ambiente do orkut.
Ninguém me convence do contrário. Quem lia revistas de fofocas, vai procurar fofoca na rede. Um homem com libido descontrolada? Não há porque. Na Internet as páginas mais visitadas são as pornôs. A Internet só dá acesso à cultura para quem já se interessa por cultura. Quem antes lia jornais, na Internet atualiza-se. Quem desperdiçava o tempo com futilidades... encontrou um prato cheio e repleto de opções.
A inclusão digital tem duas faces bem distintas: num lado, as opções de serviço, o encontro quase instantâneo das informações, um universo de progresso e instrução. Do outro lado, o lado bem mais vasto, está a grande maioria, no desperdício de tempo, uma juventude cada mais obesa e escrevendo menos e pior, com leitura cada vez mais minguada e sérias dificuldades de relacionamento social.
O estado, antes de incentivar o uso de um meio de comunicação, deveria preocupar-se em instruir seus jovens na procura da melhor informação, da edificação pessoal, da formação da personalidade e ao estímulo da produtividade intelectual, entre outros inúmeros requisitos importantes para a formação desta mancebia que está perdida, reforçando nos bancos escolares conceitos de vida comunitária e social, economia doméstica, equilíbrio psíquico, e não simplesmente atirá-los em um mundo virtual onde, sem estes conceitos, acabam se perdendo na puerilidade, na ignorância, na futilidade, no insulamento e no mais completo desperdício de tempo e de vida.
quarta-feira, 22 de abril de 2009
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