Assisto pasmo à vulgarização da maior parvoíce que já me tocou os ouvidos nos últimos anos. Trata-se da criminalização de todo o tecido social pelos infortúnios que acometem... a própria sociedade. Soa ridículo, é uma pilhéria das mais grotescas e de mau gosto, mas está aí, nos meios de comunicação e nas ruas, e cada um está assumindo, de forma submissa, a sua parcela de culpa. Isto, a culpa.
Pois que os governantes, comumente, vêm a público declarar, diante de más notícias propagadas em quaisquer meios (principalmente no que tange à violência urbana), que “a culpa é da sociedade”. Para a resolver o problema, são mais pragmáticos e incisivos: “a solução do problema é um assunto que deve ser amplamente debatido pela sociedade como um todo”. E empurre à sociedade goela abaixo tudo o que não se faz.
E deveria ser feito. Deputados, senadores, todos os governantes, recebem polpudos estipêndios, têm suas regalias, e, afinal de contas, têm a responsabilidade moral e constitucional de resolver os problemas que acometem a sociedade. De forma geral (bastante geral, diga-se), não se dedicam muito à função pela qual recebem as suas infinitas moedas, e costumam dedicar-se ao roubo, aos desvios de conduta e de ética, agem de forma mesquinha, usam o bem público para uso pessoal, pouco comparecem ao plenário, permutam favores, quase sempre de forma ilícita, trocam de partido, de ideologia, de cara.
Estes são os pobres inocentes que, no atributo das suas funções, entre outras besteiras, declaram que a culpa das mazelas que infestam pindorama recaem sobre a sociedade, sobre o povo, sobre você.
Sim. Você, leitor, trabalha, paga os seus impostos, suas taxas, sua parcela em tudo o que é social. Você, que tem a função de trabalhar, receber a troca pela sua árdua produção paga em dinheiro, que é imediatamente gasto com seu cônjuge, seus filhos, e todas as suas prioridades domésticas, sim, você mesmo, agora é o culpado pela podridão que vos assola. Muito se fala em inversões. De valores, de conceitos. Esta inversão, a de culpa, é o maior descalabro que tenho visto e ouvido, um sofisma agressivo e mentiroso, onde os responsáveis omitem-se da sua obrigação e a jogam no colo da sociedade que, por sinal, não é pessoa física nem tampouco jurídica.
O que fazer então? Já que o criminoso ali da esquina é uma “vítima da sociedade” e esta é a verdadeira culpada, o que fazer com ele? Prendê-lo? Este é o ponto máximo da solércia: não há culpados. A culpa é distribuída, cada um tem a sua pequena parcela, ninguém paga por nada e fica tudo por isso mesmo. Como, aliás, tem ficado. Todos são vítimas e culpados ao mesmo tempo, e esta é a pérola jurídica criada pelos nossos governantes. A solução? Vire-se você. Afinal, a sociedade é que deve dá-la.
Para quem concorda com estas asserções estúpidas, faço uma sugestão: vá até a delegacia mais próxima, entregue-se ao delegado e passe o resto da vida no cárcere. Eu vou voltar ao meu trabalho honesto e pagar os meus impostos, contribuindo desta forma à sociedade com o que me é de dever, e cuidar da minha família, que é a minha responsabilidade, por mim assumida.
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